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Luís Vieira da Mota - Maria Celeste Dias de Sousa Alves * - Apresentação de
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Rómulo, Nome de Código

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Renascer em Córdova (II)

Renascer em Córdova (I)

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Renascer em Córdova (I)
Maria Celeste Dias de Sousa Alves * - Apresentação de

Nascemos como Fenix, não das próprias cinzas, mas das cinzas, de uma qualquer estrela abandonada no espaço-tempo ocasional

Vasco Branco

 in

"Cidade Salgada"

Quando aceitei o convite do Vieira da Mota para vir hoje aqui apresentar o romance "Renascer em Córdova", que lhe mereceu ser contemplado com o prémio Literário Vasco Branco atribuído pela Câmara Municipal de Aveiro, estava longe de imaginar que iria sentir tanto apreço por este trabalho, e mais, que iria encontrar em Vasco Branco uma frase - aquela que escolhi para epígrafe,- que tão bem resumisse a essência deste romance.

'Vou tentar, sem me alongar muito, clarificar estas minhas palavras.

Segundo a Enciclopédica Britânica "um romance é um género de literatura que transpõe para a ficção a experiência humana, em geral por meio de uma sequência de eventos que envolvem um grupo de pessoas num cenário específico."

Parto desta definição para tecer algumas considerações sobre o livro em questão. Na verdade, estamos perante uma matéria prima que é a língua que, uma vez ultrapassada a sua função de comunicação, resulta em texto literário narrativo. Neste caso, recorre à ficção fazendo uso da imaginação criadora, que por sua vez tem raízes na experiência humana. Não é contudo qualquer ficção que tem qualidade. Para ter valor artístico, é também necessário que não lhe falte a técnica capaz de dar à narrativa unidade, estruturação e beleza formal.

No caso do romance "Renascer em Córdova", o autor criou um enredo com todos os ingredientes que facilmente aliciam qualquer leitor. Não é apenas pela unidade da sequência linear dos acontecimentos que nos são apresentados e que já de si são muito interessantes que damos valor ao texto. É sobretudo pela forma como está apresentado e pelos elementos que o percorrem do princípio ao fim, que nos prendem porque pertencem àquela massa de experiência humana pela qual todos nós, de uma forma ou de outra, já alguma vez passámos. Assim, assistimos a cenas de amor e de ódio, contemplamos o belo e o feio, deleitamo-nos com muitos aspectos agradáveis da vida e ficamos com o sabor amargo do violento e desagradável, e tudo isto, harmoniosamente encadeado, interage com profecias, oráculos, crenças, superstições, premonições, segredos, mistérios, ambiguidades, mitos, terrores, etc.

Depois, recorrendo a dados reais e sobejamente conhecidos porque pertencentes à História Contemporânea (como a Guerra do Golfo em 1991, a Expo de Sevilha de 1992, o atentado ao World Trade Center de 1993 e a tragédia do 11 de Setembro de 2001 em Nova York); recorrendo ainda a referências geográficas (Boston, Los Angeles, Sevilha, Córdova, Damasco, Bagdah, para além de pontuais locais em Moçambique onde a protagonista principal se desloca integrada nas missões da AMI) e apresentando personagens que nos são familiares, (como Bush, Saddam Hussein, Bin Laden ) o autor usa-os como moldura em que os acontecimentos e as figuras históricas se movimentam não só servindo para fixar o tempo mas também para enquadrar, impulsionar e promover o decorrer da acção.

0 uso desta estratégia toma a ficção credível e faz com que o texto obedeça às mais estreitas regras de verosimilhança, contribuindo este facto para ilustrar o princípio aristotélico de que é mais importante ser verosímil que verdadeiro. O autor conseguiu assim fazer surgir uma entidade diferente do mundo real, mas com vida própria, com sentido intrínseco, criando uma nova imagem da realidade. E isto é arte.

Este facto e a mestria com que o autor manuseia a escrita, interligando de forma hábil todos estes elementos tão diversos, mas ao mesmo tempo tão atraentes, fazem com que este livro prenda o leitor da primeira à última página.

Gostaria agora de mencionar alguns aspectos estruturais que me parecem merecer referência especial. Embora na linearidade da narrativa tudo se revele de forma gradual e se interligue harmoniosamente, há um aspecto que salta à vista e que é a dualidade - que muitas vezes é simetria - que percorre todo o romance como um leitmotiv e que nele toma as mais diversas formas.

Começa pela localização da acção, - esta situa-se no mundo americano (mais concretamente em Boston e Los Angeles) e no mundo Árabe (Al-Andaluz e o misterioso Médio Oriente). No que se refere aos sentimentos, é em turbilhão que eles afloram: o amor e o ódio, entusiasmos e desalentos levam a manifestações de guerra e de paz que forçosamente vão exercer influência na matéria e no espírito. E é nestes cambiantes de claro/escuro, luz e sombra que os factos de grande importância vão acontecer (como a misteriosa sombra profética do perfil de Abel a coincidir com a do chefe terrorista Bin Laden) estendendo-se essas tonalidades opostas, a  tudo, inclusivamente aos cenários em que muitas das acções decorrem. Transcrevo como exemplo a descrição de um anoitecer em Córdova: 0s amarelos tornaram-se laranja, depois rubros, violáceos e, quando a escuridão caiu sobre eles, olhando o horizonte na direcção do destino da sua viagem lobrigaram um clarão projectado nos trevas da noite A cidade dos califas acendera as lâmpadas do progresso... E é num ambiente misterioso, pleno de curiosidade e expectativa que o narrador omnisciente nos confronta com a existência de dois gémeos que se desconhecem porque vivem em dois mundos distintos, e que, embora tendo desenvolvido ideologias diferentes, gradualmente se vem a descobrir que, bem no fundo, têm muito de comum, sendo talvez mesmo iguais. Para a1ém da semelhança física, são ambos fanaticamente nacionalistas - só que, enquanto Dave, como cidadão israelo-americano nos Estados Unidos representa o sonho americano, - como piloto aviador toma parte na "acção Tempestade no Deserto", o outro, - Abel, - mostra ser um entusiasta pelo mundo muçulmano, lutando afincadamente pelo sonho do renascer do Islão. Para o ilustrar cito um trecho em que, perante a pergunta que lhe é feita: onde está o teu reino? Ele respondia. - no sonho, minha querida. Na capacidade infinita que o homem tem para esperar sonhando.

Quem sabe, um dia, Al Andaluz regresse"

Contudo, esta dualidade/simetria não é geradora de paz mas de conflitos e incompreensões que minam tudo a todos os níveis, podendo, a nível internacional resumir-se na frase: 0 Ocidente não compreende, ou recusa-se a compreender os muçulmanos.

E ainda, aquando da visita à Exposição Universal de Sevilha, Abel, o muçulmano, tece as seguintes considerações que bem acentuam a dualidade conflituosa entre o Ocidente e o Oriente: ... acho a vossa civilização demasiado tecnicista. Automatismos, informática, exploração espacial. Um frio racionalismo mecanicista atroz. Deparo com uma diferença fundamental entre os temas aqui expostos e os que se encontram no mundo árabe. Aqui nota-se a presença do homem triunfador, nos outros a presença de Alá. Aqui encontra-se a mente humana na sua redução a chip, naqueles o espírito mítico da humanidade

E esta incompreensão estende-se também ao campo político: A nossa noção de democracia, de governação, de sociedade, é terrivelmente diferente. 0 que neles é liberdade, aqui é imoralidade. 0 que 1á é produto da razão, aqui é inspiração divina. Lá deus pode ser morto; aqui, sem Alá, morre-se.  

E estende-se também ao campo arquitectónico.  Perante o Palácio de Carlos V e o dos Nazaries, em Alhambra, desenvolve a seguinte reflexão: Da construção muçulmana ressalta  delicadeza e espiritualidade, ambientes de recolhimento e mistério, salões elegantes para recepções requintadas. Na maciça edificação cristã  impõe-se a robustez, a força e uma soberba autoridade com laivos de tirania.

Não devo revelar os trâmites da acção, mas posso dizer que tudo isto está intimamente ligado com duas viagens de avião, com as Torres gémeas do World Trade Center e com o 11 de Setembro de 2001. Está ainda relacionado com personagens estranhas que se movimentam em ambiente de mistério, com encontros e desencontros, com a vida e com a morte. E com duas crianças gémeas, simétricas em quase tudo, que nascem quase no final do romance. Será um renascer das cinzas?

Embora aquilo que comecei por referir como experiência humana esteja bem patente neste romance, é a meu ver em June, uma das figuras principais e elo de ligação entre todos os elementos, que se detecta uma personalidade de grande densidade psicológica. Fruto certamente de muitas circunstâncias, vivências e embates da vida, oscila quase sempre entre extremos opostos, como se absorvesse em si toda a dualidade que percorre o romance e que a faz sentir-se dividida por vezes de forma dolorosa. Isto acontece em vários aspectos. Por um lado, no relacionamento afectivo. Teria sido a marca de uma experiência sexual traumatizante na adolescência, que fez com que, funcionando como contraste, mais se intensificasse a sensação de plenitude amorosa que iria sentir mais tarde e que iria ser de crucial importância na sua vida.

Por outro lado, no campo ideológico June, embora de nacionalidade americana, mostra-se dividida na incompreensão de atitudes que sente ter perante americanos e árabes e que em parte justifica o seu desassossego interior: Se detestava os Americanos pela sobranceria, pretensão e prepotência derramada sobre o resto da humanidade, num pavoneado soberbo de convencida superioridade, não deixava de surpreender-se perante os actos de vingança quase ridículos, de confessada impotência, visível nos actos de reacção dos grupos muçulmanos mais agressivos.

Grande parte do interesse da narrativa advém ainda da forma como esta se interliga com as descrições em que o autor se detém e que podemos resumir com as suas próprias palavras: Os locais  por onde passavam tinham, na boca de Abdullah sempre uma palavra de explicação. Aqui uma batalha, além uma lenda, uma história de amores proibidos entre donzelas cristãs e emires  maometanos e respectivas vinganças de família. Muitos destes trechos são apresentados com grande minúcia como acontece com a descrição de castelos e de mesquitas, - como a de Córdova que nos é descrita com um rigor milimétrico, provocando no leitor uma sensação de deslumbramento perante a grandiosidade do templo: ... e os arcos, os alegres arcos de mais de meia volta, bordados de branco calcário e vermelho argila, numa sequência sem fim, pareciam florestas das mais exóticas plantas, ou os saudosos palmeirais de Damasco omíada.

Para além disso, a observação e explicação das coisas ocasiona com frequência momentos de reflexão que se transmitem também ao leitor. Transcrevo o seguinte trecho como exemplo:

- A catedral está no meio da mesquita?

- Sim. A torre ficou lá fora abafando a almenara, a igreja ficou cercada pela mesquita. Isso deve ter e tem algum significado. Pretenderiam dizer que a Igreja dominou o Islão. No entanto, repare, miss June, não tem unidade. A mesquita era um espaço único, embora de construção faseada ao sabor da riqueza, da magnanimidade e orgulho do Califa. Quando algum acrescentava naves, fazia-o dentro do mesmo espirito de espaço único. Os cristãos, ao apossarem-se da mesquita, dividiram-na e fecharam capelas, individualizando o culto, como se tivessem deuses pessoais. Apreciará isso em breve. Por outro lado, ao limitar a catedral, tomaram um pequeno espaço, ridículo até, na imensidão da colunata muçulmana Apenas a fizeram mais alta, furando os tectos primitives, como quem diz "- atravessámo-vos a alma! "

Por vezes, o autor aproveita as deslocações dos personagens para nos proporcionar descrições de grande pormenor, beleza e qualidade literária dos locais por onde passam. É o caso do seguinte trecho em que se fala de uma paisagem perto de Córdova: Sob a última claridade do crepúsculo estenderam os olhos pela planície sem limites. Aos pés do morro, serpenteando em apertados ou mais largos meandros, sempre bordejado de vegetação ribeirinha, caminhava, sem pressas, o Guadalquivir... A visão era de uma beleza extrema, carregada de luminosidade doce em tons de aguarela tranquila. Quanto a vista alcançava era terra fértil, provida de sistemas de rega, bem cuidada e produtiva. Olivais, pedaços verdes, outros crestados de searas maduras, terra castanha de lavoura recente, pontilhados rubros de fruta madura ou de flores campestres. Enorme manta de retalhos com que se agasalham os gigantes míticos.

Em alguns desses trajectos até somos levados a entrar em típicos restaurantes e a saborear o conteúdo das suas ementas. Num deles, a descrição do ambiente e das iguarias é tão atraente e real, que devo confessor que deixou em mim uma vontade forte de rever aquelas paragens e de saborear toda a magia que dali se desprende:

A música ambiente, a calma do anoitecer, o exotismo da ementa, a personalidade envolvente de Abdulla e o aroma dos petiscos, o espirito dos néctares, todo este conjunto fazia tal efeito em June que, a esta, só lhe apetecia dançar, deslizar, qual cisne, na superfície das águas do Guadalquivir, num adormecimento consciente de feliz tranquilidade.

Desta forma, este romance adquire valor, não somente em si mesmo (dada a qualidade artística e criativa da prosa) mas também pelas citações e alusões, pelos ecos e ressonâncias intertextuais que se integram perfeitamente nos ambientes que os convocam, como acontece com a transcrição das Profecias de Nostradamus, com trechos dos poetas árabes "Al Arabi" e "Ibn Zaidum", do andaluz "Ciego de Tudela", das "Mil e uma noites" e ainda do "Cantar de mio Cid". Este mundo, onde circulam as mais diversas informações culturais, é o mundo em que vivemos, E o mundo que inspira o artista. Este texto funciona, assim, como um sistema aberto em que múltiplas realidades se cruzam ou concatenam através de toda uma série de conexões locais e não locais, formando, à semelhança de um hipertexto, redes de sentido em permanente deslocação.

Este livro é dedicado à Dra. Maria da Conceição Campos, mãe do médico Ricardo Marques assassinado na Somália a poucos dias de terminar a sua missão humanitária nesse pais. Na realidade, Ricardo Marques é referido algumas vezes nesta obra sempre como alguém que merece não ser esquecido, não só pela causa nobre a que se dedicou mas também pela enorme força anímica que o possuía e onde June foi beber a coragem e a esperança que precisava para sobreviver: Precisava reagir. Necessitava recuperar ânimo ... contagiar-se com a enorme vontade de viver do médico assassinado na Somália, cujos cantares, plenos de força e de esperança, jamais esqueceria.

Estas e outras referências são da maior importância na economia do romance pois que a abertura aos outros e o despojamento de si vão servir de alavancas que irão ajudar June a renascer.

Reporto-me de novo à frase de Vasco Branco que referi em epígrafe e que diz:

Nascemos como Fenix, não das próprias cinzas, mas das cinzas de uma qualquer estrela abandonada no espço-tempo ocasional.

Todo o romance aponta afinal para a vontade - e talvez a certeza - de um renascimento. E, parafraseando Vasco Branco direi: não das próprias cinzas porque June não morre, mas renascimento da estrela abandonada que ela foi em virtude dos desaires que marearam a sua vida. Penso que conseguiu. Como? Não só nas novas vidas que nasceram e que deixam tudo em aberto, mas na esperança de um mundo melhor que a protagonista sempre lutou por manter. E ainda na harmonia, no equilíbrio e na paz que, - de forma que não revelo para não divulgar o final,- se vislumbra vir a alcançar por fim.

Muito mais haveria para dizer, mas mais não cabe nesta ocasião. Penso que o que disse basta para poder concluir que estamos perante uma obra de muito valor. Para além de ser um romance muito interessante, muito verosímil e actual, o autor conseguiu apresentar um trabalho de comprovado valor literário. E não só. É motor de muita reflexão.

Resta-me, pois dizer Parabéns! Parabéns ao autor que nos presenteou com uma obra de qualidade; parabéns à Câmara Municipal de Aveiro com a escolha que fez para o prémio literário Vasco Branco; e penso que até a cultura portuguesa está de parabéns pois que esta obra é seguramente uma mais valia para o enriquecimento do seu património.

* Mestre em filologia germânica, professora aposentada do IPL - Instituto Politécnico de Leiria



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