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Luís Vieira da Mota - João Candeias, na apresentação em Leiria, do livro "O Odres" - 27 de Maio de 2000
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Avulsa -2

Rómulo, Nome de Código

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Lis & Lena

Poema de Outono

Avulsa - 1

TRIPEÇA

O Legado de Mireia

IN PULVEREM

Renascer em Córdova (II)

Renascer em Córdova (I)

O ODRES

O ODRES
João Candeias, na apresentação em Leiria, do livro "O Odres" - 27 de Maio de 2000

ÁGUAS MÁGICAS"

"A arte é o homem acrescentando
à natureza, ............
Ele acrescenta-lhe actos que
aproximam antes de mais a sua
liberdade."
Jean Guitton

É sempre difícil encontrar as palavras certas para caracterizar ou definir os géneros literários, neste caso o conto; até porque Luís Vieira da Mota encontra a razão de ser das suas narrativas no passado, algumas vezes no regresso à infância, em alusões à erosão provocada pela passagem do tempo e pela amargura de ser arrancado do lugar que tanto ama.
Assim, o conto deixa-se contaminar pelo memorialismo, espécie de anamnese que percorre toda esta obra, em que o autor deixa bem marcada a vivência em redor do seu rio, o Odres, o maior dos rios por ser só dele ou por "pertencer a menos gente", como diz Alberto Caeiro; pela afeição à terra e às personagens ? entidades reais ? transformadas pela narrativa e pelo distanciamento em matéria ficcional.
Quero dizer que, não é a ficção pura e simples quem impõe as personagens, mas as personagens que se convocam e impõem à ficção, sem que com isto se perca a qualidade, bem como a invejável capacidade de comunicar, de cativar e prender o leitor.
O passado torna-se presente, porque não há lógica para o tempo e para a vida.
As situações apresentadas neste livro situam-se no contexto daquilo a que Jean-Pierre Warnier chama "cultura tradição", em contraposição à "aldeia global" de Marshall Mcluhan.
Isto é, da "cultura tradição" à "aldeia global", vai uma distância tão grande como do Odres ao Tejo, do pessoal ao impessoal, da autenticidade à despersonalização pela uiniformidade, do preenchimento ao esvaziamento.
É ainda Jean-Pierre Warnier quem nos diz  e vou citar: "Não cremos, ( ) , que a cultura-tradição seja a reprodução fiel de um conjunto de hábitos petrificados. As línguas e as culturas mudam porquanto são imersas nas turbulências da história." (fim de citação).
Quando falo de cultura-tradição, não me refiro ao que ela possa ter de primordial, mas sim à autenticidade dos afectos que movem gentes e criam uma incómoda nostalgia nos que se afastam de uma real pureza de sentimentos.
Tudo isto se encontra em "O Odres", micro/macro cosmo, ampliação do localizado à dimensão do universal. Todo este pequeno/grande mundo gira à volta de um rio. Um rio geograficamente pequeno. É nas suas margens que Luís Vieira da Mota faz a vida ganhar dimensão literária.
Pareceu-me ouvir, aqui e ali, ressonâncias ainda que longínquas de António Nobre, como no primeiro conto do livro " A Romaria" ou de Raul Brandão em, por exemplo, "Recursos Humanos".
Em "Os Abades" ou em "As Máquinas", revela-se um humor subtil e irónico tão característico e manifestado já em outras obras do autor.
Mas é talvez em "Sortilégio" que se encontra o centro de gravidade desta obra, a sua pulsão vital.
Detenhamo-nos um pouco em "Sortilégio", conto dividido em três partes e que representa o coração mágico deste corpo uno. Aqui, o Odres, assume toda a sua dimensão mítica.
Desta forma, na primeira parte do citado conto, chamada "In Loco", Luís Vieira da Mota escreve a dado "passo": "E por esse sortilégio eu fui arrancado de raiz da minha infância. Sempre que perguntava a razão da mudança de terra, recebia a eterna e sucinta resposta: ? Por mor do sortilégio do rio".
Como se pode verificar, há aqui como que a acção mágica do rio a exercer uma influência quase fatalista sobre quem com ele se envolve.
Mais adiante, e já na terceira parte de "Sortilégio" chamada "A Revelação" , Luís Vieira da Mota reforça este encantamento por acção das águas e narra, referindo-se a Janeco, uma das personagens deste conto: "Era pequeno, por não crescer depois do acidente em que deixara a alma no rio; em troca apareceu, de repente, a saber tocar violino: nunca tocara rabeca, apenas cavaquinho; depois do acidente, num rebate súbito, comprou uma rabeca e um arco e, sem mestre nem escola, começou a tocar."
E ainda, na página 64: "O mercantilismo roubou-lhe o encanto. A quinta, desde que foi vendida, está para urbanizar. Não saberemos nunca se era o sortilégio a provocar a poesia, ou, mais provavelmente o invés: afastada a poesia, o sortilégio foi habitar em outros rios".
Quando o autor menciona a poesia, está a remeter-nos para a poesia que explicitamente vive neste conto, como se pode verificar na página 32.
Parece-me elucidativo.
A propósito de poesia é bom que se diga que em "O Odres", está sempre presente o poeta que Luís Vieira da Mota também é, e que refulge tão intensamente nastas páginas: pela plasticidade das descrições, pela difícil simplificação da sintaxe, pela suave melodia que nos envolve, pela extrema sensibilidade com que configura as personagens, pelo espaço onde se movimentam e concretizam, pela magia das águas que lhes dão vitalidade, pela fluidez do discurso.
Para concluir, quero manifestar-lhes o meu íntimo desejo de que a vossa leitura deste livro de Luís Vieira da Mota, seja desafiadora e competitiva; ou seja, que a mesma se desencon-tre da minha, em novas e criativas pistas interpretativas, que darão, a estes contos mágicos, a justa dimensão que merecem.



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