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Luís Vieira da Mota - (O próprio poema)
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Avulsa -2

Rómulo, Nome de Código

Rómulo, Nome de Código

Rómulo, Nome de Código

Lis & Lena

Poema de Outono

Avulsa - 1

TRIPEÇA

O Legado de Mireia

IN PULVEREM

Renascer em Córdova (II)

Renascer em Córdova (I)

O ODRES

Lis & Lena
(O próprio poema)

...

Celebrei do Lis nosso esta corrente,

Das fermosas pastoras escutado,

Que guardavam no vale o manso gado.

 

                                               Francisco Rodrigues Lobo

                                                                                      (Eglogas)

 

LIS & LENA

(Saga Imaginária)

I - INTRÓITO


                Corri muito país e muita terra

e não é assim

que os rios nascem:

não de repente, logo toda a água,

assim bonacheirona e sem torrente

fértil e larga,

espraiada em vergéis, ameandrada,

alongando seu curso p'ra mais vida

no pouco espaço havido até ao mar.

Agora aqui estou eu,

atacado de poesia,

na febre de sentir e perceber

como é que pode um rio que não ia,

ir logo de rompante ali nascer.


Que justificação ou que milagre,

que toque de condão ou de magia

pode fazer que nasça

por debaixo de casas e por elas

se enroscando se roce como gato,

sedento de carícias e que faça

as casas parecer nascidas dele,

raízes nas areias e nos seixos

a que lavando vai, alisando a pele.

 Por força natural é cataclismo

e, nesse caso, não seria

um rio de meiguices e águas mansas,

batendo levemente a cada porta,

fazendo cantar noras longo trino,

regando com fartura cada horta,

em todo o seu caminho;

até que, de cansaço, se aconchega

nos braços do oceano turbulento

aonde desagua de mansinho.

Assim, não muito fácil entender

o modo de nascer a transbordar,

em vez de fio a fio,

que é como normalmente se começa

quando se nasce rio.


Apenas resta, então, imaginar

que o rio não nasceu, foi colocado

naquele lugar,

por algum deus, ou mago, ou namorado

que o fez nascer ali, por encantar

ou ter sido encantado.

 
II - O RIO DO ENCANTAMENTO


                No tempo em que nasceram os poetas,

e não havia anos,

apenas dias-noites,

nem calendários nem outras escritas,

           (os poetas nasceram de voz viva,

              cantada e dolorida)

foi posto ali o rio e foi assim:

Um tocador de flauta,                

o nome dele, talvez Lereno,

pastor de gado, sonhador, poeta

em acto de procura dum amor p'ra sempre,

em acto de procura dum amor de dar,

em acto de procura dum amor de dor,

a procurar Amor

foi ali parar.

Nos olhos transportava,

entre brilhos de sol e palidez de lua,

entre fulgor de raios e torpor de trevas,

entre rumor de vida e solidão de morte,

o futuro de quantos após ele

haviam de ir ali chorar a sorte,

destino de poetas, rumo de utopias,

por um amor perdido

por um amor achado,

amor nunca existido,

tão forte, interior, tão denso de ousadias,

que ninguém acredita verdadeiro,

apenas inventado.

 
Na flauta conseguia tirar árias,

melodias suaves,

em sons de encantamento

como o correr dum rio ou voo de aves,

como o cair das folhas ou piscar de estrelas;

melodias dolentes

qual um gemer de nora,

como o tocar do sino dando ave-marias,

ou novelos de fumo entardecendo

nas chaminés dos lares;

e melodias tristes, de rasgar a alma,

assim os olhos de inocentes condenados,

ou os silvos do vento revoltado

em viagens vadias nos pinhais agrestes.

Sempre que sua flauta era tangida

revoadas de aves, rastos de perfumes,

estrelas cadentes, desfolhar de flores,

murmúrios de fontes, sussurrar de brisas

paravam para ouvir e celebrar com ele.


Um dia aconteceu, já sem memória,

data que se perde em manhãs de bruma

no cursar da história;

data que se lembra por ter sido única

e depois esquece por correr da idade,

num dia assim aconteceu:

parada para ouvir o som da flauta

estava ninfa, ou fada, ou anjo, ou deusa

que para o tocador

menos que princesa não seria.

E deste encantamento é que nasceu,

por entre a penedia,

um paraíso.

Lereno sucumbiu a tanta b'leza;

encantado pergunta

                                     — Quem és? Que fazes?

                 — O nome? Flor de Lírio.

Que faço? Gostaria ser

guardadora de patos,

assim Joana fora em rio Tejo

por encantar de flauta um tocador

que apascentava gado,

sofrendo amor;

mas não o posso ser, que nestas fráguas,

tão secas, tão estéreis, tão madrastas,

apenas nascem urzes e giestas

e outras ervas

que medram em sequeiro isento de águas.

 
Por isso precisava um rio, um lago,

ou fonte, ou charco,

por onde com meu gado me banhasse.

 
                Desejo de princesa formulado,

tocando fundo em alma ardente

de sonhador poeta enamorado!

Desejo de princesa quando cai

em alma de pastor,

tocador de flauta, sonhador, poeta,

deixa de ser desejo e é trabalho

de Hércules,

que fossem mais que doze até!

Que sete anos e outros sete

precisos fossem p'ra cumprir!

Ou outra vida e outra

se for esta curta p'ra tão longo amor!


                — Bela princesa Flor de Lírio,

desejo teu é minha obrigação ...

 
                — Mas bela como, como hei de saber se sou,

não tendo espelho de água em que mirar-me possa,

não tendo um banho de água em que toucar meu corpo,

e sem um fio de água por tratar as tranças,                   

refrescar a pele, humedecer os lábios,

neste lugar agreste

onde o vento é quente e a humidade escassa?

               

Neste sítio rude

onde mesmo as fragas

abrem de secura recozendo ao sol?

Mas bela como,

como hei de ser e não saber que sou!

 
                Exalta-se Lereno e seus trabalhos crescem,

já nem obrigação lhe basta;

é imperativo

que se cumpra ali de sua Dama o mando.

 Por funda inspiração, por força de alma,

por querer mais que bem querer,

por exaltação de fé

a remover montanhas,

ou por que os deuses, ledos, nesse dia

quisessem exaltar Amor sincero,

Lereno arranca um som de melodia

tingido a verde calmo,

vermelho agreste,

amarelo solar,

azul celeste,

carregado de força e de magia

que fez chorar as pedras longas águas,

rebentar fontes, tantas, que fizeram

um rio ali correr, que não corria.

 
Retido por açudes se fez lago,

espelho, Flor de Lírio, beleza, deusa!

Rio de encantamento por de amor nascido,

alegre, de menino bem gerado;

rio-menino que precisa

de amparo enquanto cresce e se emancipa,

por isso entre casas apertado,

enquanto no seu curso se inicia.

 
Rio-menino em cambalhotas,

caindo açudes, perturbando eiras,

tocando mós, regando jeiras,

criando lagos onde patos nadam,

nenúfares medram, guarda-rios cantam.

 
Rio que não nascido mas  parido

de pedregoso monte feito lágrima,

que de contente vai retendo

as águas vagarosas .

Rio que de poetas se fez tinta,

em versos para sempre repetidos

por ventos nas ramadas dos salgueiros,

por gemidos das noras embaladas.

Rio da Flor de Lírio, assim chamado,                

em honra do momento de magia

que o fez brotar;

rio da Flor de Lírio por ser dado

como prova de amor,

gesto de amar,

por um pastor enamorado

a guardadora que não soube se guardar.

O sítio onde de amor milagre fez,                

o nome teve, e assim ficou,

de lugar de Fontes;

e o seu rio, que deles é,

de herança herdado,

rio da Flor de Lírio, rio Lírio,

ou rio Lis,

rio de encantamento,

paisagem com saúde,

ali em cima uma montanha,

adormecida nas águas do açude,

aonde ainda os patos se balançam

em filas ordenadas como fossem

os mesmos do princípio,

gerados duma lenda,

projectados da memória,

num sobe e desce a água,

perdidos de saudade, em busca sempre

da guardadora bela que lhes deu o rio.

 
III - TRÊS IDADES DO RIO

               

                Rio com três modos de estar nas margens,

consoante corre e vai crescendo.

Rio-criança de calções e bibe,

às saias agarrado de mães-casas,

que lhe dão forma, que lhe travam ímpetos,

enquanto salta de um açude aqui,

logo atraído por moinho além,

traquinice infantil sem consequências

na norma pedagógica escolhida e dada.

 
Rio que, curioso, quer saber

o que se passa ali e mais além,

por isso, em curvas lentas,

a transbordar às vezes das mordaças margens,

por ouvir de mais perto as falas rústicas

do rude lavrador tangendo os bois,

por ouvir de mais perto as vozes frescas

das moças que nos campos entoam modas,

sonhando amores de encantados príncipes.

               

Que foge um pouco e logo a reprimenda

dum arrastar de nora,

emparedado em muros,

vigiado de perto, naquele modo

de educação austera a preparar futuros,

criando força de alma que resista

às intempéries do destino.


Adolescente meigo, obediente e calmo,

como filho nascido dum amor perfeito

aceitando a sorrir o dedo erguido,

regressa sem receio,

cantarolando mesmo,

ao labor monótono do dia-a-dia.

 
Entretanto crescer anseia,

querendo, quando grande, ser um rio útil,

conhecedor das coisas que escutando vai:

no sussurrar das folhas onde o vento canta

ouve falar de mares, vilas e castelos,

ribeiros sem destino precisando guia

que lhes conduza a linfa ao mar sem fim...

 

E rompem-lhe desejos de crescer e ir

ver o que para além das águas há,

alargar os sentidos para lá das margens

espartilhadas em que nasceu menino.

 Ouve falar de areia, de pinhais dourados,

d' El Rei poeta plantador de naus;

ouve falar de rosas milagroso pão

e da Rainha Santa de sorriso doce;

ouve falar de terras que precisam água,

das águas suas, generosas, limpas.

Sente-se grande, vai à cidade,

olha o Castelo e, deslumbrado, perde-se;

alonga-se por ela

e quer trepar vielas

por aprender a história

em cada pedra escrita.

 Vai à praça do poeta para ouvir as lendas

das batalhas reais aos moiros ganhas;

ouviu histórias e gostou das rendas

que delicadas damas, ágeis, tecem,

enquanto o Sol empalidece e parte;

ouviu os sinos em Avé-Marias,

chamando o povo a alimentar a alma;

embriagou-se e quis rezar na Sé ...

 De novo a educação das margens-muro

espartilhando as águas do seu leito.

Já não criança, agora jovem, púbere,

sentiu injusto tão cruel castigo;

perdeu o canto alegre d´águas moças

e foi chorar baladas, arrabalde fora,

por lhe voltarem costas na cidade,

por ser tratado com desdém.

Nem nascimento de encantado amor,

nem o rigor da educação havida

lhe vale na travessia da cidade gélida,

alheada de tudo que não luza em oiro.

Sentiu-se rio feio e rio só;

numa desilusão, sonho desfeito,

sentiu-se rio inútil

e alagou-se em pranto Ulmar além.

 
Mas o seu parto ledo,

e sua história suave

correram léguas e ganharam fama

do outro lado, longe, noutra encosta,

onde de pedras feitas nascem mós,

as mós que vão gemendo em seus moinhos d´água.

Por esses sítios e nos mesmos tempos

brincava uma ribeira 'inda menina;

ouviu a história desse rio moço,

e desmaiou de encanto;

quis conhecer detalhes, tanto andou,

a perguntar aqui e a espreitar além,

que nomeada foi de alcoviteira

e Lena foi seu nome e lhe ficou.

Ao contrário dos rios,  

quase todos os outros rios,

que correm para o lado ou para baixo,

Lena, por curiosa ou muito apaixonada,

pelo relato belo do nascer do Lis,

desliza para  cima  perguntando dele.

É mais além, lhe dizem, há um Castelo,

e o rio meigo lhe lavando os pés.

Não, não é este ainda, este que vês,

com torres verdes de pirâmide,

É outro mais escuro, mais moreno;

hás que passar também uma Batalha,

pomares e hortas, pontes e levadas.

 
Persiste e sobe, vai subindo firme,

embalada na cisma de menina:

esse rio buscar que tão falado

lhe fora sempre,

e lhe povoa os sonhos de donzela.

 
Quase lhe inveja o nascimento mágico

por música de flauta namorada;

vai contando, aos salgueiros marginais,

enleios de donzela apaixonada;

em confidência aos seixos em que corre,

ensaia as falas a dizer

quando encontrar o moço porque vive,

e não achando saberá que morre.

Com tão bonitas falas de encantado amor,

faz aliados no percurso duro:

abrem-se terras a deixar passá-la,

formando um vale que, tão mimoso e ledo,

o Gracioso nome lhe ficou devendo.

Avança e sobe, vai subindo sempre.


O Castelo por fim;

não vendo o rio,  roda por poente,

mais um nadinha e então sim

adormece no leito desse rio amado.

               

Por um momento curto são o Lis-&-Lena,

apenas e somente enquanto dura

o tempo de noivado e dos papeis se trata.

Então pergunta-lhe como ela soube

que ele existia.

Feliz, ela relata a loa ouvida

em trovas de pastores poetas

que vento arrasta.

Ela quer saber tudo, todo o encanto

do nascimento dele que corre fama.

Com muito orgulho, então, da origem mito,

feliz por esse amor nela inspirado,

esquece o desdenhoso trato

havido na cidade

que de injustiça o fez lavar em pranto!

 Sente que está a crescer, um rio grande!

Agora é um rio adulto, responsável:

tem um Ulmar à frente que regar,

tem um pinhal sombrio p'ra transpor,

tem dunas e areia a humedecer,

e, só depois do Sol se pôr,

embalado nas ondas do mar bravo,

tempo de finalmente adormecer.

 
IV - O RIO HOJE

 
                Um rio não existe por ter água;

um rio não existe por ter margens.

Um rio existe enquanto a vida

em dependência dele o faz viver.

Um rio não tem nome, é apenas rio,                

enquanto não contada a sua lenda:

não haveria Lis sem Lobo e outros;

não haveria Tejo sem Camões e muitos;

Mondego sem Choupal e Academia,

nem o Danúbio o era sem os Strauss,

nem canais de Veneza sem suspiros;

ou Mississipi sem o Marc Twain

e mesmo aquele rio,

maior que o Tejo só por ser de poucos,

não tinha vida sem Caeiro.

               

Os rios vão morrendo por morrer quem cante;

Os rios vão morrendo por faltar quem viva.

Não há Lerenos nem Flores de Lírio

para servir o rio e não servir-se dele.

Por se inventarem os espelhos

as águas claras são inútil coisa;

Por se inventar o neon,

Luar, estrelas, vão morrendo aos poucos; 

por se inventarem os motores de aço

são as azenhas um museu de espanto;

por se inventarem os adubos químicos,

húmus de cheias pestilência fétida;

por se inventarem discotecas, bares,

margens de rio já não coram beijos;

vão os choupais morrendo por inúteis:

a vida deles era ser a capa

da poesia dos amores novos;

depois de aberta das emoções a química,

do madrigal perdeu-se o delicado enleio.

 
De progresso em progresso, se progresso é,

se desprezou o rio aonde a vida nasce.

Como são sempre os rios a correr mais fundo,

neles se deposita o excremento humano;

mais económico largá-lo assim,

que lucro é tudo quanto importa haver.

Lena não tem pureza quando encontra Lis:

traz os cabelos d' água desgrenhados, crespos,

cheios da baba de duendes cúpidos;

arrasta os olhos líquidos,

cristal que foram,

cegos de lama fedorenta e densa;

já nem com braços ternos diz às árvores:

bebei meu sangue que sereis viçosas.

Lis já não tem encanto quando abraça Lena:  

de lixo os bolsos cheios, de tristeza a alma;

vai prenhe dos odores de quem não tem olfacto,

as unhas sujas de trabalho escravo;

gago de sustos, impotente lira:

onde, de azul, os pássaros?

Onde, de prata, os peixes?

Se continuam juntos é por hábito,

casal à mesa por amor aos filhos,

que, sem beleza, assim, amor fenece.

 
Os namoros que tinham Ulmar fora,

viraram zangas de palavras poucas;

percorrem mudos o pinhal do rei,

que os pinheiros não saibam suas rixas;

mesmo o final alegre no Oceano,

risonho de alarido de crianças nuas,

deixou de ser de férias em areias limpas.

 
Chora Lereno por teu rio amado

Que, de contente não, arrasta as águas,

antes dos pesos que lhe lançam nelas

e as fazem lentas, engordadas, baças.

 Oh!  Flor de Lírio chora,  a tua prenda,

de noivado poético enredado e belo,

sucumbe de abandono em agonia torpe,

fruto do consumismo em que pecamos todos,

carneiros de vontade ao matadouro idos.

 
Oh! Flor de Lírio chora, o teu espelho,

que te mostrou tão bela quanto eras, és,

desfeito do encanto, não confessa

tua beleza além da Branca-Neve.

Lereno acreditou e o milagre fez-se;

Lereno por amor fez o milagre;

Princesa, Deusa, Flor de Lírio ou Fada,

por tanta fé mostrada consentiu,

aceitando, risonha e tímida.

 
Sacode as lágrimas, Princesa altiva,

Pega, mão firme, no chicote antigo,

velho de séculos, eficaz ainda,

o mesmo usado por aquEle sábio

para expulsar da Casa de seu Pai

os mercadores somíticos,

e vai zurzindo os ímpios,

os indiferentes, os interesseiros,

almas gentias de metal corrente.

 
Pega, Lereno, em tua flauta amena,

Refaz o gesto de milagre puro

Que só o amor consegue,

O ouro não:

toca de novo a melodia encanto;

talvez as pedras sejam outra vez sensíveis

à divinal magia dum amor sincero;

Talvez as pedras sejam,

o Coração do Homem, não.


Luís Vieira da Mota

Abadia, Outubro/1997



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