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Luís Vieira da Mota - Maria José Reis (*) - Apresentação de "Tripeça" - Leiria
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Maria José Reis (*) - Apresentação de "Tripeça" - Leiria

Tripeça

(Três histórias de bichos, coisas e sítios) Luís Vieira da Mota

Leiria, Folheto Edições & Design, 2006

 

Apresentação do livro

Leiria, Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, 27.Mai.06

 

A minha presença hoje aqui também tem uma história - a resposta ao pedido da Isabel para apresentar um livro novo do marido não foi complicada. Ela explicou. O livro tinha começado por ser uma prenda de Natal para os netos. Entretanto alguns amigos haviam sugerido a sua publicação mais ampla. 0 escritor deixou passar o tempo e finalmente decidiu-se (e estes tempos com histórias que só ele saberá contar ... ) E aqui estamos.

 

Os meus encontros anteriores com o António Luís da Mota Barbosa tinham sido muito curtos. Ficaram-me as imagens de um homem contido, com uma sabedoria "a terra” a saltar-lhe no brilho do olhar franco e honesto e uma cultura muito vasta e reflectida. Já os encontros com os livros do Luís Vieira da Mota, que há dez anos vem publicando poemas, contos e romances, têm sido mais ricos. A minha costela leiriense sente-se muito orgulhosa quando um dos artistas da nossa região consegue afirmar-se e ser reconhecido, no caso do Luís é já para além dela. Mas é um pouco mais do que este bairrismo o que me levou a querer conhecer melhor a sua obra. Fui estando atenta ao que publicava e aprendendo a conhecer o escritor / poeta.

 

Daí que tivesse sido simples (mas revelador de alguma inconsciência que os afectos turbaram) aceitar estar hoje aqui.

 

A obra do Luís Vieira da Mota é já urna voz forte. Soa a terra e a visões de um quotidiano que não esquece os seus valores ancestrais. Os seus percursos pelas áreas da poesia e da narrativa vão a partir de hoje soar com mais umas tonalidades que só as histórias sabem dar. É que "estas três histórias de bichos coisas e sítios" não começam com o "era uma vez" dos contos tradicionais, mas inauguram um novo tipo de narrativa na obra deste autor que já publicara contos e romances.

Não é da sua obra que vos venho hoje falar. Tenho todo o gosto em apresentar-vos um novo livro de histórias.

Só que a minha paixão por livros faz-me iniciar esta apresentação por outro lado: o do objecto que estamos a manipular. Pego nele e olho a capa: conheço o autor, o editor é de Leiria, os desenhos lembram-me os dos meus alunos no final dos anos sessenta e o titulo - Tripeça - traz-me à memória aquele assento baixinho de cortiça que comprei em Monsanto e em que gosto de me sentar ao lume, de Inverno. Os olhos tropeçam então em três rostos de criança, sabiamente dispostos para nos darem outros indícios - é que estes não são das tais crianças dos desenhos! Estas têm qualquer marca de presente!

 

Contracapa: os mesmos desenhos com um texto sobreposto. E desta vez o conteúdo começa a ser mais revelador - poderei ler algo sobre um cão que não se sentia muito bem como cão preto e que tinha um desejo forte, o de ser cão voador! Estamos em progresso. 0 livro é leve, o toque agradável e é revelador de segredos que talvez valha a pena conhecer ...

 

A abertura da ficha técnica no verso da folha de rosto revelou-me outro segredo: afinal o autor fez ainda uma outra experiência. Quis, ele próprio, ser o designer do livrinho. Pegou em desenhos dos filhos quando crianças, em fotografias e objectos do passado da sua família e amigos (pp. do índice), fez composições agradáveis das páginas com os textos que tinha escrito e agora entrou em diálogo com a Folheto, criando uma obra digna que em nada se parece com a criação de um não profissional da área.

 

Deixem-me dizer-vos com a humildade de uma simples amante das coisas da Arte. Esta uma das características da arte actual: revelar-nos as marcas pessoais dos criadores. E neste singelo objecto há a arte do Luís, no texto, nas selecções das imagens que escolheu e na paginação que fez. Certamente que o Luís nunca se tinha imaginado na pele de um ilustrador e muito menos estudado o papel da ilustração. Mas intuiu que fazia algum sentido remeter os seus primeiros leitores (os netos) para o universo das histórias que lhes quis contar, através de imagens que ajudassem a ler os textos que criara, esclarecendo ou completando o texto (certamente que não foi por acaso que, ao falar das pombas do quintal, o Luís escolheu o desenho da "ementa do almoço de casamento dos avós" (pp. 1  e índice)...

 

Atrevo-me a dizer - este é um livro muito natural, muito autêntico, que se aproxima de nós muito de mansinho, como se tivesse vergonha de dizer - (estou aqui na prateleira desta livraria, pega e folheia-me... "

Este livro é certamente um livro de avô! Só que este avô Luís é também escritor, é um artista. Vejo este livro sobretudo como uma oferta de avós, aqueles que dizem/fazem ofertas que são opções, indicações de caminhos que os netos possam vir a escolher. Neste caso, este avô estará a dizer-lhes, imagine eu:

"Mexam nestes objectos, descubram nas suas páginas algumas das vossas experiências de infância e ouçam ou leiam as histórias destes heróis. Vamos descobrir se o cão preto aprendeu a ser aviador?

Gabriel, sabes que os arcanjos podem ter nomes como R2-D2 e que gostam de fazer descobertas explorando o planeta Terra?

E o que andarão um galo e um girassol a fazer dentro de uma história?"

 

Virão os netos deste avô a gostar de livros e de os ler? Que importa agora? Este avô oferece-lhes, entre muitas outras coisas, este livro. E a nós, adultos que o desfolhamos, não se esqueceu de dizer que tem na Mireia, no Gabriel e na Helena o tríptico que o sustenta, lembrando-nos como o ciclo da Vida se vai revelando cada dia de modo diferente, mas no eterno retorno ao início de todas as coisas. Fomos sustentados pelos pais, sustentamos os filhos, sentimos nos netos o nosso sustento... (E quero chamar-vos a atenção para a palavra que o avô-poeta escolheu e que é fabulosa - sustentar!)

 

Já vos falei do livro. E as histórias? A sabedoria milenar dos avós-poetas tinha mesmo que submergir. Saber escrever e contactar com crianças são experiências que este adulto vivencia quotidianamente. Estas são, entre outras, as marcas deixadas pelo autor nas três histórias que estão dentro deste livro.

Não vos irei revelar o conteúdo. Dir-vos-ei que "o quintal do poeta”, que Cristina Nobre tão bem identificara como omnipresente no "Legado de Mireia”, (um livro de poemas já publicado) deu um salto para a primeira história. E desta vez foi também ele personagem de uma história compartilhada com o cão preto e a princesa Mireia. E os três interagem para resolver o conflito do personagem principal - se se desejar muito qualquer coisa e se lutar por ela seremos capazes de a obter?

Na segunda história, as coisas complicam-se - o mundo dos adultos, povoado com crianças que o não podem ser, revela-se com toda a sua brutalidade. Como pode um arcanjo, mesmo nas transformações milenarmente renovadas, perceber este universo? Afinal havia algo que ele poderia fazer. E deu o seu contributo, vestindo-se de andróide R2-D2 (pp 27) neste Natal de 2005. Não foi uma solução global, a que ajudou a construir, mas aqueles dois meninos que com ele se cruzaram, encontraram em três homens, os reis Magos do seu Natal.

Finalmente temos uma hist6ria em que os animais falantes e outros seres do mundo rural se cruzam para ajudar o frangote Gilberto a encontrar finalidade no seu caminho de galo - aprender a botar canto (pp33). De encontro em encontro, foi tentando perceber como poderia substituir o pai na sua função de relógio da quinta. Mas foi tarefa difícil e logo o destino de "virar canja e cabidela" (pp43) atravessou-se-lhe no caminho. Será que vai ser capaz de cantar de galo? E a que preço?

 

São três histórias em que as marcas da escrita do Luís Vieira da Mota continuam a afirmar-se fortemente. Daí que a nossa opção de partilha deste livro com os que nos rodeiam possa revestir-se de experiências diversificadas:

Há que o ler atentamente, descobrir nele vivências dos nossos quotidianos e partilhá-lo com as crianças que nos rodeiam, se assim o entendermos.

Podemos também recontar cada uma das histórias com palavras que não as do escritor mas contando/recontando todas e cada uma delas à nossa maneira.

Sentar uma criança no nosso colo e desfolhar contando, e lendo também, as imagens que o povoam. Se lermos o conto em voz alta teremos que estar atentos ás reacções dos nossos interlocutores. É que a escrita deste autor, que é facilmente "oralizável", faz tropeçar muitas vezes no rico vocabulário que a suporta e no seu humor que tem que se lhe diga... Os adultos, nas suas experiências já mais longas, acham-no delicioso... mas os mais inexperientes precisarão, ou não, de algum tempo para o digerirem. E estes factos apenas se revelam como mais um pretexto para interessar os diferentes leitores e para enriquecedores encontros com diversos leitores e diversas capacidades de leitura.

E, se conhecermos bem o destinatário, dá-lo a ler, muito simplesmente.

E conversar sobre ele com os nossos amigos ... E, sobretudo, comprá-lo para poder usufruir do seu dar-se a ler, sempre disponível para partilhar alguns momentos do nosso quotidiano.

 

É que os livros passam a ter sentido quando os leitores se encontram com as propostas do escritor.



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