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Luís Vieira da Mota - Cristina Nobre - Apresentação de
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Avulsa -2

Rómulo, Nome de Código

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Lis & Lena

Poema de Outono

Avulsa - 1

TRIPEÇA

O Legado de Mireia

IN PULVEREM

Renascer em Córdova (II)

Renascer em Córdova (I)

O ODRES

O Legado de Mireia
Cristina Nobre - Apresentação de

MOTA, Luís Vieira da, 0 legado de Mireia, ed. Diferença, Leiria, Março 2003.

 

 

Sobre um encontro: a voz de Luís Vieira da Mota

 

            Encontrei-me pela primeira vez com o poeta Luís Vieira da Mota – ou, pelo menos, foi esse o primeiro registo que a minha memória guardou – num evento cultural organizado pela Câmara Municipal de Leiria, integrado na Feira do Livro, em Maio de 2001, em que colaborámos, juntamente com a Dr.ª Mercília, na divulgação de valores poéticos leirienses, declamando uma selecção de poemas nossos e do livro da estreia poética de Carlos André.

Confesso-vos a surpresa que tive quando ouvi, na voz forte, grave e de uma poderosa sonoridade, como é a do Luís, alguns dos meus poemas, cuja ressonância sempre me parecera até aí mais próxima da água do que da terra. Mas o Luís levou a minha palavra mais longe do que eu alguma vez tinha suspeitado e atirou os poemas ao vento da noite como quem grita verdades originais no Jardim das Oliveiras. Não imagino, por sua vez, qual o sentimento que atingiu o Luís quando salpiquei alguns dos seus poemas com um fio cristalino de água salgada, devolvendo à terra cultivada da sua poesia a brisa de um mar inquieto e volúvel. Registei deste encontro a voz singular de Luís Vieira da Mota e fiquei marcada por uma simpatia de almas que hoje estou publicamente a resgatar.

Da obra constituída de Luís Vieira da Mota pouco sabia e nem é sobre ela que aqui vos venho hoje falar, mas talvez seja bom acompanhar rapidamente um percurso que ganhou contornos mais definidos nos últimos anos.

Na Área da poesia, em 1998, publicou Cerco de arame farpado, colectânea de poemas datados dos anos de 1966 e 67, numa primeira revelação poética com ligação a circunstâncias biográficas específicas e, em 2002, Poema de Outono, ilustrado por João Nascimento, num claro prenúncio do conjunto poético que nos reúne hoje aqui, embora sem ter ainda encontrado o destinatário prioritário e idealizado de O legado de Mireia, distinguido com o "Prémio Literário Afonso Lopes Vieira" no ano de 2002.

Na área da narrativa, Luís Vieira da Mota conta três títulos, dois de contos, forma ficcional onde a brevidade se entrelaça perfeitamente com a concisão da sua escrita - em 1998, Boa viagem e até amanhã..., e em 2000,  O Odres – e um romance em 2001, O alto espaldar da cadeira de verga, uma nova experiência em que treina os seus dotes literários, condimentando-os com a raiz da queirosiana ironia que sempre atinge a voz crítica do intelecto.

Luís Vieira da Mota não é nem um novato estreante nem um glorioso decadente. É uma voz forte que continua a produzir-se e a fazer-se ouvir como a pujança da terra que deseja no contínuo cultivo a sua vocação para a fertilidade.

 

Sobre O legado de Mireia... ou o quintal do poeta

 

Gosto de encher a boca com o teu nome

 e cantá-lo por aí abaixo,

onde as árvores habitam a tua ausência

e os pássaros ocupam o silêncio

do teu vazio.

 

[ .. ](p. 29)

 

Poucas são as acções que podem mudar o decurso dos dias de um modo tão decisivo como a palavra poética. Forte, como o impulso primeiro ou o pressentimento do fim, a palavra da poesia transfigura o mundo em busca de sentidos para a inevitabilidade de um quotidiano pobre e limitado, imerso em angústias e dúvidas, resgatado esporadicamente por uma mãe-natureza ou pelo deslumbramento máximo com a infância. Os Ecos (p. 29) que se ouvem neste legado de Mireia são os ecos da infância como resgate poético de um corpo no Outono, ancorado a um sítio a que chamei, intencionalmente, o quintal do poeta.

 

1. Do agora para o depois: poética das oposições

 

0 poeta é o avô à procura das palavras-testamento para a neta, de seu nome Mireia, e também para os outros netos a haver. Assim, e tomando como étimon o eco do nome Mireia (o valor do significante-chave deste legado, tal como o entendeu o crítico espanhol Dámaso Alonso), a poética deste conjunto de poemas oscila entre o agora de uma descoberta infantil onde tudo ainda é possível projectado na distância do futuro, e a angústia por um futuro onde o infinito se pode concretizar, mas sobre o qual pesam medos, receios e angústias, cismas e melancolias.

 

Do avô para a neta passa a corrente de uma esperança e de um receio, contaminando assim a dádiva da pureza infantil com o peso da racionalidade de uma humanidade que se questiona a si mesma, ao seu quintal e ao mundo para lá do quintal.

Leiam-se os poemas Azul-Receio (p. 14), Interferência externa (p. 36), Veneno (p. 40), Auroras Indecisas (p. 41), Ao sabor do tempo (p. 42) e Diferença dolorosa (p. 43) e facilmente o leitor percepciona a sombra que paira sobre o meio metro da criança nos seus leves três quilos de peso, uma ameaça corporizada no azul do céu, que não é eterno, ou na brevidade do sol de Inverno: É, contudo, uma alegria breve nos temores / entrincheirados nas previsões dos sábios, / que dizem não ser p'ra sempre o céu azul / e não está nas minhas mãos contrariá‑los. (p. 14).

 

O poeta sente-se ameaçado –  Renova-se a ameaça de cair lixo / no meu quintal. (p. 36) - e, impotente para mudar o decurso das coisas, teme as acusações da criança frente a um quintal conspurcado. Nalguns poemas a ameaça transforma-se mesmo numa certeza crua e nua, consubstanciada na imagem d'a pestilência dos corpos apodrecidos / [que] vai sobrevoar o céu do meu olhar. (40), numa clara contaminação do olhar do poeta e da turvação do azul celeste anteriormente mencionado. Noutros, as ameaças permanecem como premonições de um apocalíptico final que deixará a criança com o virgem tempo dela por cumprir: Pairam sobre o meu quintal ameaças do nada / que há-de ser quando o tempo / morrer de si / ou acabar por outrem. / [...I / Mas se for por outrem, / Mireia,  / não será fácil perdoar / as auroras da tua vida / que se não cumprirem.(p. 41). 0 mundo exterior deixará de funcionar ao ritmo sazonal da natureza para se instalar uma desarmonia brusca: Quando piso as folhas secas / caídas naturalmente / neste Outono de ameaças, / imagino as folhas tombadas / intempestivamente, / em qualquer estação impr6pria / de cair de folhas. (p. 42).

O clarão do brilho do sorriso de Mireia torna-se – nesses rasgos de profundo desânimo e frustração com um amanhã que não se controla e que o poeta gostaria de poder legar na pureza original de um harmonioso quintal –  na esperança possível, mas também ela ameaçada: Resta apenas, de positivo, / saber de ti, / do teu sorriso, / onde se confunde ainda / o bum das bombas / com o estralejar dos foguetes / e o seu clarão / com o brilho das lágrimas de luz / caindo em festa. (p. 43).  No entanto, resta intacta uma Semente de esperança (p. 44) pois se Não correm bem as horas no meu quintal., ainda assim acalenta-se um grão de esperança a germinar na pureza da infância: No entanto, / que da minha incerteza / nasça a tua esperança, / que no meu desespero / se crie a tua força / e alargues o sorriso a todo o sempre.

 

 

2. A comunhão com a natureza: síntese panteísta

 

Perante a incerteza ameaçadora de um mundo caótico que invade o quintal do poeta e o faz duvidar da pureza do espaço exíguo que irá legar a Mireia, só a natureza surge como bálsamo e refrigério, numa antecipação da primitiva harmonia do homem no cosmos. Consciente do prazer fundacional do contacto com a natureza, o poeta descreve um passeio de comunhão com a natureza campestre (o inverso do passeio de Cesário Verde, deslumbrado por uma cidade em crescimento), num convite explícito para que Mireia, De Braços Abertos (p. 18) procure esse contacto pela vida fora:

 

Hoje,

deixei o asfalto e a floresta de cimento

mais cedo,

ainda o sol fraco desta primavera tímida

doirava as nuvens e iluminava a ramagem alface

dos carvalhos do nosso bosque;

e lá no fundo,

onde as laranjeiras cercam o lago,

havia frutos doces de sumo e frescura.

[...]

 

São coisas, Mireia, que não verás de dentro do quarto

se não empurrares a porta de braços abertos.

 

A natureza é aqui entendida como um espaço onde os artifícios não têm lugar e as Sombras de néon (p. 20) das árvores são ainda o reflexo do luar, e os Jardins sintéticos (p. 24) são repudiados em nome de uma serenidade que empresta às descrições uma tonalidade horaciana de locus amenus:

 

[ ... ]

 

Desceu sobre mim a clareza das coisas simples

no veludo das flores,

no aroma das laranjas,

no esvoaçar de penas,

no luzir dos peixes vermelhos

e perturbou-me o coaxar das rãs,

em desespero de conservação instintiva e crente

num futuro de que lhes escapa o leme.

 

É um sitio calmo, Mireia,

com muita sombra e o espelho de água

confere-lhe uma fresca tranquilidade,

adoçada com sol poente

no meio da mata quase pura que cerca o lago.

 

[ ... ]

 

A água é o princípio de vida determinante, daí as acusações feitas a uma Terra perdulária (p. 34), incapaz de poupar um bem essencial, ou a dificuldade em aceitar e justificar a secura das árvores à míngua de água (Resignação, p. 37), árvores entendidas como natureza modelar em cuja comunhão a criança entrará um dia (Personalização, p.38):

 

[...]

 

Verás, um dia,

como são tagarelas

à hora do chá

as árvores que te vierem

beber à mesa.

 

 

Este papel das árvores como modelo de harmonia é reequacionado no longo poema Um dia, quem sabe  ... (p. 49), ao sabor de uma deambulação do poeta por um mundo-novo, de árvores eternamente verdes, onde a melancolia desaparecesse e com ela o reflexo do envelhecimento no espelho da alma, milagre da paragem do tempo para uma infância a haver: Um dia, quem sabe, / na tua mão, / os espelhos / terão as faces que se quiser. (p. 51).

Para uma sensibilidade franciscana, da harmonia entre todas as pequenas e singelas coisas que povoam um universo, os poemas O meu (teu) quintal (p. 31), Actividade Natural (p. 32) e Chão, Ar e Água (p. 33) contam-se entre os mais puros e idealizados, deliberadamente esquecendo o peso das ameaças – O meu quintal / tem a grandeza do universo. / E eu sou do tamanho dum deus, quando / não preciso exceder os seus limites / para viajar as constelações exteriores. (p. 31) - ou procurando não falar da violência e agressividade latente na própria natureza – Custa-me dizer-te coisas de ruindade. (p. 32) - ou percebendo, mas insistindo, na limitação da beleza e da harmonia possível, nessa capacidade que o franciscano tem de encontrar o prazer do todo na ínfima parte:

 

 

Dentro do limite redondo do meu quintal ...

Bem sei que só te falo do meu sítio,

mas é este que pretendo deixar-te limpo e verde,

porque enquanto for verde e limpo tem

de tudo:

bichos

            do chão

do ar

       e  

       da água

 

ervas

                   do chão

                   do ar

   e

   da água

 

0 chão

                    o

                     ar

   e

   a água

e não á preciso além disto para se viver.

 

É nesta síntese panteísta – uma natureza intocada e suficiente como fonte de liberdade – que o poeta encontra a outra semente de esperança capaz de transformar a ameaça numa Orgulhosa Herança (p. 39):

 

Apesar de tudo,

a natureza mantém o Outono

com a delicadeza de sempre

e as folhas tombam,

tingidas de amarelo e nostalgia,

alheadas dos tambores dos exércitos

que ameaçam desertos onde as árvores foram há muito.

 

Gostava que no meu sítio, Mireia,

permanecesse

o Outono aonde as folhas caem livremente,

em tempo próprio,

com a doçura amarela da nostalgia.

 

Então, sim,

teria orgulho do quintal que tu herdasses.

 

 

3. A infância encantatória: antídoto e princípio de vida

 

A criança, na singeleza da sua inocência primordial, corporiza o encontro possível dos tempos desencontrados, num deslumbramento total, exemplificado no poema Imagem (p. 19) onde a infância é a única novidade. Por isso não há novidades, Mireia, / além da minha retina / vazia da tua imagem.

Nessa posição central privilegiada de eco e procura central do olhar do poeta, a criança assume um estatuto encantatório e, através dela, o poeta aprende algumas coisas. Aprende a impossibilidade de ficar para sempre no espaço de inocência que a infância representa – Se nos bastasse o luar, / como te satisfaz o leite / que sugas do seio materno, / seríamos ainda crianças / com todos os sonhos abertos. (p. 25) – aprende o poder da infância para desfazer angústias – Pudesse a tua presença, / Mireia, /despedaçar a névoa dos meus acordes / e eu nada mais faria / que tocar a lira dos teus dedos / nas eternidades que houver. (p. 26) - aprende a capacidade de relativizar todos os presentes mutáveis – E as notícias de hoje, / não vindo de ti, / Mireia, /melhor permanecessem / em vão. (p. 27) - aprende a esperança de um sorriso: Aguardo o teu rosto de criança, / talvez dele venha o sorriso, / talvez a esperança / que exorcize as sombras da vidraça / do meu quintal. (p. 47).

Se a aprendizagem essencial se faz no sentido inverso ao que seria de esperar – o avô conhece através do inocente não-saber da neta –, o poeta continua a fazer poemas como única possibilidade de chegar à criança no futuro e de fazer chegar o seu legado de ensinamentos, perplexidades, receios e algumas alegrias de comunhão com a natureza. O lugar dessa passagem de saberes, o Testamento (p. 22), exige esforço e vontade de entender as coisas simples como as palavras da poesia:

 

[ ...]

 

Um dia hei-de dizer-te,

um dia,

com palavras de cinco pétalas. (in "Um dia ", p. 21)

 

[...]

Posso ir de cá mil vezes

e outras mil voltar,

posso escrever mil cartas

e outras tantas ler,

que não te será dado saber de mim

além de aí.

 

No entanto, se vieres e entenderes

a água

a terra

o sol

o ar

poderás herdar as borboletas

do meu imaginário.

(p. 22)

 

O Ocaso (p. 23) do poeta representa, afinal, a esperança de renovação e continuidade na criança de futuro em aberto: ou este sol que me vai morrendo / para ressuscitar, aí, vivo, / nas tuas mãos?. A dificuldade maior reside em saber se será possível ao poeta legar os valores verdadeiramente essenciais, interrogação de que se sustenta o poema Fatal, às vezes (p. 30):

 

[ ...]

 

A sombra das árvores é uma igreja

onde não se reza,

porque Deus, ali, é livre

dos sacrários em que O fecham,

das hóstias onde O comprimem.

 

Por isso, Mireia,

terei de legar-te as árvores inteiras

com sombra e frutos,

onde sejas um pisco de peito livre

de curiosidade ruiva

aos olhos de Deus.

 

Mas é tão difícil legar a liberdade!

Fatal, às vezes.

 

 

Fatal como um livro que se termina ou as palavras colhidas entre a diversa sementeira poética, assim este legado de Mireia acaba a peregrinação do Outono de uma vida para a promissora infância de outra, com uma bela, e de sabor bíblico, projecção para o futuro, onde a liberdade se alcança com O Suor do teu rosto (p. 53-57). Mais do que um recado, este poema final salda as contas das dúvidas e esperanças numa existência humana digna, e reafirma, numa feliz síntese final, o empenho que Mireia terá, harmoniosamente, de construir para alcançar a liberdade legada:

 

[...]

 

Nada te será dado por acréscimo:

nem o sol de todos os dias

ou o luar de todas as noites,

nem a terra nos teus pés

ou brisa nos teus cabelos,

nem a água na tua fronte

ou o sal na tua língua,

nem as cores nos teus olhos

ou música nos teus ouvidos.

 

Após a queda de todos os muros

herdarás o suor do teu rosto.

 

Com este volume de poesia, Luís Vieira da Mota herdou não apenas o justo título de vencedor do "Prémio Literário Afonso Lopes Vieira 2002", mas tamb6m um rasgo novo no conjunto da obra que tem vindo pacientemente a lavrar ao longo destes últimos anos e lhe garante um espaço próprio – o quintal do poeta – na cultura da nossa região.

 

 

Cristina Nobre

S. Pedro de Moel, 23 de Março de 2003



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