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Luís Vieira da Mota - Cecília Basílio * - Apresentação de "IN PULVEREM" - Casa-Museu João Soares
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Avulsa -2

Rómulo, Nome de Código

Rómulo, Nome de Código

Rómulo, Nome de Código

Lis & Lena

Poema de Outono

Avulsa - 1

TRIPEÇA

O Legado de Mireia

IN PULVEREM

Renascer em Córdova (II)

Renascer em Córdova (I)

O ODRES

IN PULVEREM
Cecília Basílio * - Apresentação de "IN PULVEREM" - Casa-Museu João Soares

In pulverem ou In claritatem?

 

Foi com agrado que acolhi o convite do Eng.º Luís da Mota a dizer algumas palavras sobre In pulverem  (poemas tristes). Digo que foi com agrado porque não senti que fosse um simples acaso o facto de a temática deste livro tão de perto se ligar com a linha de reflexão que venho seguindo, a que a morte de Jacques Derrida no Outono de 2004 trouxe uma como que maior urgência.  

No diálogo que, como nunca antes, estabeleço agora com Derrida (confrontando-me com o que ele mesmo considerou uma “terrífica hipótese”), continuo a dar-lhe em mim a palavra, para com ele pensar. E é assim que percorro cada poema de In pulverem, na certeza de quanto é instável toda a construção que faça do seu sentido:  “entre dois infinitos, o poema”. Nenhum sentido é estável nestas condições. Porém, isto mesmo é o que faz a essência do poético. É sobre o poético nestes poemas que vou concentrar a atenção como proposta de leitura de um livro que forçosamente há-de tocar cada um, ainda que de modos muito diferentes. Um livro que a cada um diz respeito.

A pergunta que muitos terão colocado não terá, porém e por certo, visado esta questão da poeticidade do texto. Terá muito simplesmente sido suscitada pelo título. De facto, a este respeito, já ouvi comentar que o livro é um acervo de textos fúnebres escritos ao longo do tempo por ocasião de uma partida, anunciada ou não, mas sempre certa. Também já ouvi a designação de “poemas elegíacos”. Tristes, de qualquer maneira, ou não tivesse como subtítulo, num parêntesis, precisamente esta classificação: “poemas tristes”.

Num tempo em que é já longínqua a memória dos ofícios rezados em latim, será para muitos de estranhamento o efeito destas palavras numa língua morta, estranhamento que se torna tanto maior quanto mais conhecida porventura for a temática convocada. As palavras “in pulverem” remontam ao primeiro livro da Bíblia, Gen 3: 19, na versão da Vulgata: “porque tu és pó e ao pó voltarás”. Foram introduzidas na liturgia de quarta-feita de cinzas: o conhecido “Memento, homo quia pulvis es et in pulverem reverteris”, “lembra-te, ó homem… que és pó e em pó te hás-de tornar. Apropriadamente nestas palavras é recordada ao homem a sua natureza mortal.

Da morte tratam, pois, estes poemas, terão muitos dito, ou pensado, em face do título. A morte, porventura o tema que mais reacções adversas suscita, muitas vezes reacções contraditórias de atracção-repulsão. Para muitos terá o fascínio do mistério dessa viagem “para muito longe”, viagem em que não se pode “levar este corpo”… que “é pesado demais” (estou a citar de O Principezinho…). Um texto poético tem este poder de convocar outros textos, intertextos chamamos-lhes por isso mesmo, que vêm intensificar a sua poeticidade. Convocam em mim este intertexto as palavras do poema “Primeira e última” (p. 66), na sua imensa ressonância poética:

 

“Não vou esquecer,

nem posso perdoar-te

esta primeira vez que foste

sem dizer nada, sem me levares,

sei lá aonde,

apenas longe.

 

O que dizem estes “poemas tristes” é a pergunta que farão muitos. E cada um os lerá na busca da resposta a esta pergunta. Como se de um segredo a desvendar se tratasse, que, uma vez desvendado, não levantasse mais perguntas. Mas não é assim. E não é assim porque há uma outra pergunta a fazer antes desta, uma pergunta que raramente é colocada e que, no entanto, me parece crucial na recepção destes, como de todos os poemas. Será que a alguém terá ocorrido perguntar: Quem fala nestes poemas? Ou, formulada de outra maneira, de quem é / o que é esta voz que escuto em mim ao ler estes poemas?

A poucos ocorre fazer esta pergunta, porque a resposta lhes parece óbvia. Dirão que quem fala é o autor da escrita, sendo sua a voz escutada. Esta resposta, porém, está muito longe de satisfazer quem levanta tal pergunta. Quando muito satisfará os que a não levantam, aqueles a quem nunca terá ocorrido levantá-la. E digo isto porque que o que faz que seja poética esta escrita, insisto, é precisamente o facto de suscitar de imediato esta pergunta.

 

Não será por acaso que  “Quem? ou o quê?” era o título da conferência que Derrida iria dar no mês em que morreu. Indefinidamente adiada, diferida. É no espírito desta conferência para sempre “por vir” que coloco esta questão, naturalmente para a deixar em aberto:

 

Quem fala nestes poemas? A quem é dirigida a fala no efeito que produzem?

 

Estas duas perguntas colocam-se a cada momento no acto de leitura de cada poema constante deste livro. E é nessa medida que, dando testemunho da morte, o livro é ao mesmo tempo um contra-testemunho dessa mesma morte, testemunhando a vida, ou melhor, nas palavras de Walter Benjamin, de uma sobrevida, tradução sem dúvida empobrecedora da palavra alemã Überleben, über, “sobre”, que é também “acima” e “mais”, sobrevida e não mera sobrevivência.  Sobrevida de quem?, voltar-se-á a perguntar. Não apenas daqueles que foram nessa viagem para longe, mas também de quem lhes fala falando-nos, ou nos fala falando-lhes, ou seja, deste “eu” enunciador que revive, sempre outro, sendo o mesmo, em cada nova enunciação. Porque nenhuma enunciação se repete igual. Há iteração, não repetição.

 

Quem é, então, o “eu” que fala nestes poemas?

 

Escutamos distintamente alguém que se assume na primeira pessoa para explicita, ou implicitamente, se referir a si mesmo e se envolver no que diz, um “eu” a quem cada um dá voz dentro de si no acto de leitura. A várias vozes, portanto, se manifestará este sujeito enunciador. Com alguma coisa, porém, cada um de nós concorre na voz que lhe empresta. E isto que digo, dirá o próprio autor, para sempre tornado leitor da sua própria escrita. Mas é óbvio que na escrita fica impressa a marca do autor, o traço ou traça original, princípio e o fim de toda a construção de sentidos, na sua essencial instabilidade. 

Por isso lhe pediria que desse voz ao eu que fala no último poema do livro, o poema que intitulou “Rasgão”.

 

Daquele diário rasgado…

eu sei, amigo,

eu sei apenas, eu pressinto,

tu sentes, amigo,

tu sofres,

tu foste, tu és o rio de tinta

da escrita interrompida

como quem rasga folhas

sem razão.

 

Ficaram-te nos dedos

vazios

as folhas brancas

despidas de traços ou letras

da margem mais dorida do rasgão.

 

São páginas intactas, limpas,

onde tudo ficou suspenso

por tempo indefinido

marcado por um relógio

esquecido,

sem corda,

num canto do salão.

 

Guarda as folhas brancas, amigo,

e um dia, muito longe

muito tarde haverás de saber, quem sabe!

como seria o resto da história

se o diário

não tivesse rompido

antes da parte mais bela

que tinhas no coração.

 

 

Poderia ouvir o poema enunciado noutras vozes. Poderia tomar excertos, momentos especiais e enunciá-los. Por exemplo, um momento especial para mim é este:

 

tu foste, tu és o rio de tinta

da escrita interrompida

como quem rasga folhas

sem razão.

 

Ou ainda:

 

São páginas intactas, limpas,

onde tudo ficou suspenso

por tempo indefinido

 

Em voz alta, ou silenciosamente, não há duas vozes iguais, nem a mesma voz se repete. Por isso um poema nunca é igual, sendo o mesmo, é diferente em cada nova enunciação. Como disse, não há repetição, mas iteração. Parece-me que ninguém contestará esta realidade e, se a estou chamar à consciência, é por ser a linha de leitura que proponho. Que cada um, ao ler o livro, escute este “eu” que enuncia e se enuncia, manifestando-se diferentemente, tanto quanto diferidamente, em cada nova enunciação. Cada um lhe trará, por força disto mesmo, um “suplemento” (o termo é também de Derrida), que, por mínimo que seja, o faz diferente, fazendo-o, assim, crescer e, crescendo, viver essa sobrevida de que falei atrás.

 

E o que acontece ao eu, acontece ao tu a quem o eu se dirige e a cada ele, ou ela, que envolve no processo. Ainda se poderá dizer que o livro fala da morte? Não falará antes da vida? Esta “vida” dos que “romperam as palavras e passaram” como “luzes transformadas” (recolho estas palavras de Herberto Helder na tão feliz apropriação que delas faz Luís da Mota na dedicatória do seu livro), esta vida que todos serão consentâneos em reconhecer poderia ser tomada como um símbolo dessa outra vida, longe, muito longe, nessa dimensão da realidade que tantas reservas levanta aos entendidos deste mundo. Autorizando a solicitação deste sentido, o livro é de esperança que fala, de esperança sustentada na certeza de que não há longe para o amor, como não há longe para Deus. Não serão o mesmo? É o que leio neste final de “Asas”:

 

É por isso que Deus te diz ao coração,

mãe, que tens

o anjo mais lindo do Seu coro.

 

Retomo o último poema do livro, intitulado “Rasgão”, que transcrevi na íntegra e de que destaquei passos (vide supra). Agora, para propor a leitura de todos os outros à luz que nele me parece brilhar mais intensamente, havendo, como é natural, uma gradação crescente, extrapolável do livro para a vida do autor. Dos passos dados no início e ao longo do percurso dão conta estes poemas que já leram, ou irão ler, por certo reler, nunca sendo iguais, como disse, quaisquer duas leituras.

Tomando o último poema do livro, tento ao mesmo tempo segurar os fios que ainda permanecem mais à superfície no movimento do implicar-explicar no caudal deste rio. “Rio de tinta”, mas também de água e de luz, rio que mais e mais se alarga e aprofunda no seu curso, aqui e nesse “longe” das “páginas em branco” de todo o diário, materializado, ou não, em escrita. 

Assim como construímos um sentido para o “eu” que fala, assim construímos um sentido para o “tu” a quem o “eu” se dirige. Em “Rasgão”, quem foi / é o “tu” a quem ficaram nos dedos as folhas brancas “da margem mais dorida do rasgão”? Quem foi / é “o rio de tinta da escrita interrompida”, que tudo deixou suspenso nas páginas em que não ficaram “marcas”? Ou ficaram, na sua própria ausência? Estou de novo a convocar Derrida...

Da imensa abertura configurada na abertura imensa deste rasgão falam todos os poemas deste livro. Por isso, In pulverem será ao mesmo tempo “in claritatem” de 2 Cor. 3: 18 (“de claridade em claridade”..., em algumas traduções, “de glória em glória”).

 

Falei do “eu” e do “tu”, do enunciador e do enunciatário. E cada um de nós, perguntar-se-á, então, onde e como intervém? Na resposta a esta questão, cada um de nós toma consciência de si mesmo como enunciatário oblíquo num discurso que, não lhe sendo directamente dirigido, não deixa de o visar. Não é por seu intermédio que o poema se torna de novo discurso vivo? Não constrói cada um de nós uma significação, um sentido, para as palavras que por seu intermédio de novo se tornam enunciação?

Toda a significação é, pois, uma construção, uma invenção (no sentido etimológico da palavra) de um sentido, uma invenção do “outro”... que não se inventa nunca, sendo o que nos inventa a nós (estou, é claro, a apropriar-me das palavras de Derrida).

Em todos os poemas, há sempre um rasgão. Na voz que empresto a este “eu” que neles fala, choro sempre um luto, choro o rasgão e as páginas deixadas em branco, choro o rio que deixa de correr, correndo indefinidamente em mim. Mas quem é o “eu”? E quem é o “tu”? A quem se dirige o “eu” na voz que a minha voz assume para dizer aqui e agora estas palavras? 

Darei a vez a outras vozes, na enunciação de outros poemas que, na qualidade de sujeito da enunciação deste texto, tenho o privilégio de poder escolher: “Partir e partilhar” (p.59); “Epitáfio inexplicável” (p.50); “Cinto de Castidade” (p.32); “Glicínia” (p.23). Ao autor, que foi também o leitor primeiro, pediria que, nessa qualidade de leitor (ainda que não mais o primeiro), desse voz ao “eu” do primeiro poema, tal como lhe pedi que desse voz ao do último. A cada um, a quem pertence escolher outros poemas, apenas recomendo que parta do fim para o início do livro, na certeza de que (convoco T.S.Eliot) é sempre do fim que partimos e o fim é “chegar onde começámos” e ver tudo pela primeira vez.

* Doutora em filologia germânica, professora do IPL - Instituto Politécnico de Leiria



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