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Luís Vieira da Mota - Dr.ª Celeste Alves - na Livração
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Avulsa -2

Rómulo, Nome de Código

Rómulo, Nome de Código

Rómulo, Nome de Código

Lis & Lena

Poema de Outono

Avulsa - 1

TRIPEÇA

O Legado de Mireia

IN PULVEREM

Renascer em Córdova (II)

Renascer em Córdova (I)

O ODRES

Rómulo, Nome de Código
Dr.ª Celeste Alves - na Livração

Apresentação do livro "Rómulo, nome de código"

Dr.ª Celeste Alves

na Livração – Marco de Canaveses)

 

"Rómulo, nome de código"  o titulo do livro que Luís Vieira da Mota acaba de publicar e sobre o qual dá a seguinte explicação: Rómulo era o nome de código do oficial de engenharia mais próximo em qualquer lugar perdido nos teatros de guerra. Trata-se, na verdade, de um teatro de guerra em que se perspectiva a guerra colonial de Angola, espinho doloroso que ainda hoje está enterrado na carne de muitos.                                   

 

É sabido que Portugal em determinada altura da Hist6ria possuiu um vasto império que ia do extremo Oriente (Timor) ao Ocidente (Brasil) e que foi referido por Camões como sendo aquele que o Sol logo em nascendo vê primeiro/ Vê-o depois no meio do Hemisfério/ E quando desce o deixa derradeiro. Nos anos sessenta, esse império ainda se estendia, para além do chamado Estado Português da Índia (Goa, Damão e Diu)(l), aos territórios de  Macau, Timor e, no continente africano, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Embora oficialmente esses espaços fossem referidos como províncias ultramarinas, a verdade é que se tratava de territ6rios coloniais, sendo Portugal o último país a possui-los.

 

Contudo, até ao séc. XIX, a ocupação daqueles territ6rios, especialmente os africanos, foi quase inexistente, sendo essencialmente usados como colónias penais, ou, em tempos mais remotos, como zonas de captura de escravos ou ainda como portos de grande utilidade nas rotas comerciais com o Oriente. Só a partir do último quartel do séc. XIX, quando surgiu a necessidade de os defender da cobiça de outros povos, essas regiões começaram a ser realmente colonizadas.

 

A vida nesses territórios não era fácil - especialmente para os negros, que eram alvo de discriminação e exclusão quase total de direitos. Mas o tempo dos Impérios tinha acabado. Em todo o lado se assistia às guerras de libertação, e foi justamente nos anos sessenta - mais precisamente em 1962 que Angola foi palco das primeiras lutas pela independência. A este legítimo desejo dos povos autóctones reagiu o governo português dando início a uma guerra - colonial - mundialmente reprovada - em que milhares de soldados e oficiais perderam a vida e que se prolongou até 1974.

Embora muitos dos soldados que tomaram parte nesta guerra sinceramente achassem que deviam sacrificar-se na defesa da Pátria, devendo essa postura merecer todo o respeito, a verdade é que muitos outros, certamente a maioria, achavam que, perante a impossibilidade da vitória militar, seria loucura batalhar contra os ventos da História, sendo preferível entrar em negociações políticas aceitáveis e em formas de cooperação futura.

Nenhuma guerra é boa, e esta guerra colonial não era, de modo algum, nem boa nem justa. Condenada internacionalmente, ela infringia os mais elementares valores de respeito pelos homens e pelos povos.

Por isso, no programa do 25 de Abril de 1974 constavam três propósitos: Descolonizar - Democratizar - Desenvolver. E uma das primeiras tarefas foi mesmo descolonizar, embora os tempos pós colonização também não tivessem sido nada fáceis.

De uma maneira geral podemos dizer que todos aqueles que nesse período conturbado passaram por Angola, não o esquecerão. A correr-lhes no sangue, não ficou só o fascínio mágico que aquelas paragens imprimem na alma, mas a violência lá vivida - a insegurança, as atrocidades, as vidas ceifadas - deixaram marcas indeléveis e muitos foram os que ficaram física e psicologicamente mutilados.

 

1

É neste contexto histórico que Luís Vieira da Mota insere o romance que hoje nos traz aqui, e que estruturalmente apresenta uma dinâmica curiosa. 0 Narrador, Hernâni Flores Araújo, técnico de Electrónica, ao regressar a Luanda, após a independência de Angola, recorda muitos episódios que viveu e presenciou quando ali estivera na década de 60. Após fazer um enquadramento geográfico e humano do espaço onde se situa a acção, o narrador vai estreitando o seu campo de observação, acabando por se situar no mesmo andar do prédio onde tinha vivido a personagem principal, "Rómulo". A partir desse momento, o narrador abandona a perspective pessoal (só a voltando a retomar no fim) para focalizar apenas a história de Rómulo, tomando-se narrador omnisciente A sua perspectiva de testemunha invisível, que está por dentro dos acontecimentos, toma-se especialmente curiosa quando ao longo da narrativa nos apresenta vários apontamentos diarísticos escritos por Rómulo na juventude, facto que permite ao leitor ter um conhecimento mais profundo da personalidade do protagonista, podendo desta forma perspectivar a narrativa como que a três dimensões.

Como já foi dito, o cenário da narrativa é Angola, parcela daquele território que o autor define como continente negro, misterioso e empolgante (73-74). E certamente que todos os que um dia por lá passaram terão oportunidade, ao ler este livro, de se deleitar com aquele espaço maravilhoso de vegetação e sol (73) por onde nos deslocamos e onde se situam espaços de eleição como a baia ou a ilha de Luanda, que o autor diz ser de uma beleza imorredoira, resistente a todas as vicissitudes de guerras e colonialismos. ( ... ) com aquele areal percorrido por extensa artéria ladeada por praias em ambas as bermas...

E não só'. Terão oportunidade para sentir aquele calor aguado e denso (35) que se entranha viscosamente em todas as coisas e a picadela dos mosquitos e da matacanha, praga por que os protagonistas foram atacados na ilha do Mussulo; terão oportunidade de relembrar o sabor da moamba (57), da manga, da fruta pinha, do mamão e da papaia (58); terão oportunidade de ver os pretos a viver em sanzalas de cubatas construídas com paus, folhas e lama e, no mercado, o movimento das quitandeiras a oferecer os produtos regionais: fuba, peixe seco... expostos em panos coloridos (31); terão ainda a oportunidade de ouvir termos típicos da linguagem local como matabichar, quitetas, machimbombo.

É neste cenário que conhecemos Rómulo, o protagonista comandante de pelotão, homem folgazão, mas de grande humanidade, dedicando-se às tarefas que lhe foram atribuídas na Fazenda Milagres com espirito de iniciativa, entusiasmo e patriotismo. São-nos narrados diversos eplsódios, fruto da convivência do dia a dia, mas recheados de ecos do cenário da guerra que os circunda. Assim, se alguns são de caracter jocoso e picaresco, outros há pautados por inseguranças, intrigas, ódios, ciúmes, tudo tecido numa rede densa por onde passa uma grande paixão e a vida diária do militar. As experiências vividas por Rómulo, em grande parte, decepcionantes, senão mesmo traumatizantes, transformaram-no num homem desalentado, derrotado, passando a pôr em causa muitos dos valores que até então defendera.

Sempre a guerra se mantém em pano de fundo. A guerra que nos chega obliquamente através da narrativa de massacres, dos prisioneiros maltratados, das manobras da PIDE, das tarefas dos infiltrados, das emboscadas, dos feridos que muitas vezes chegavam ao hospital já cadáveres.

A guerra que passa a não ter razão de ser, e por isso, passa a ser vista como guerra injusta. A este propósito, na pág. 159 pode ler-se: para o cidadão comum, para o soldado compelido, para o intelectual lúcido, não era fácil encontrar justificação para a manutenção duma luta isenta de sentido, quando ao lado todos os colonialismos ruíam.

Há ainda o medo e a revolta que tudo minavam, contribuindo para que se generalizasse uma terrível sensação de solidão e marasmo, dois fantasmas que o autor diz tomarem-se ainda mais cruéis do que a iminência dos combates (139).

Numa apresentação desta natureza normalmente não há lugar para se referirem pormenores. Não resisto, contudo, à tentação de mencionar um trecho que, na minha opinião, é muito significativo dentro do contexto da obra. Trata-se da descrição de um momento de lazer. Perante o ambiente difícil, traumatizante, desequilibrador que se vivia, ele testemunha uma realidade intrínseca do ser humano: a oposição que existe entre a aparência exterior - a robustez da idade adulta - e a tremenda fragilidade interior perante a adversidade, que impele - como recurso equilibrador - ao regresso aos prazeres da infância. Atitudes quase inacreditáveis, não pertencessem elas àquela zona recôndita do homem que só os especialistas poderão talvez explicar.

Passo a ler:

As coisas que ali aconteciam! Mas tudo bem retratado. Quem haveria de acreditar que nós "apanhados pelo clima", adultos de corpo, farrapos de espírito jogávamos ao pião e corríamos de arco e gancheta, como nos dias longínquos da escola primária? Longínquos no espaço e perdidos no tempo. Sem fotografia ninguém iria acreditar. Manter o equilíbrio exigia muito de todos nós. A sensibilidade agudizava-se de tal modo, que os copos de vidro grosso dos nossos sentidos se tornavam de cristal fino, frágil, friável, reduzido a estilhas ao primeiro embate. (150)

 

Este é o livro com que Luís Vieira da Mota novamente nos brinda, romance que desta vez se reporta à guerra colonial, dando com ele um importante contributo para reavivar as memórias de um período tão significativo para a sociedade portuguesa. A sua preocupação não foi, contudo, a fidelidade de uma reportagem da guerra, mas a de nos mostrar um ângulo da sua face oculta, que, por esse mesmo facto, muitas vezes passa despercebida. Tal é a face dos acontecimentos, tão ou mais importante que a da sua história, pois volta-se para o lado humano - os entusiasmos, as alegrias, as frustrações, o enorme desejo de paz - a matéria, afinal, de que o homem é feito.

 

Mais uma vez tenho o prazer de estar aqui, agora no calor da sua terra natal, a publicamente o felicitar com os meus calorosos: Parabéns!

 

 

(1) 0 Estado Português da Índia foi ocupado pela União Indiana em 1961, numa acção que o Governo Português só reconheceu em 1975.



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