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Luís Vieira da Mota - (O próprio poema)
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Avulsa -2

Rómulo, Nome de Código

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Lis & Lena

Poema de Outono

Avulsa - 1

TRIPEÇA

O Legado de Mireia

IN PULVEREM

Renascer em Córdova (II)

Renascer em Córdova (I)

O ODRES

Poema de Outono
(O próprio poema)

Aos interiores desolados

onde musgos e heras

são a doçura restante

do viço que lhes roubou

a selvagem invasão das silvas

tecida nos litorais

de engodo.

 
POEMA DE OUTONO

 
Os olhos detrás da janela

seguem as lágrimas de chuva na vidraça

num Outono avançado

quando as árvores esfíngicas num reino de névoa

povoam a encosta do outro lado do vale

envolta na penumbra matizada do amarelo e rubro

das folhas das cepas desprezadas

isentas de subsídios

e de braços.

 
Em breve seria o tempo da poda e empa

que já lá vai nas águas do rio em roldão de barro

e de esquecimento.

 
Não há vida nos trilhos ou nas estradas

apenas máquinas

ocupando o chão e o silêncio

que vista detrás da vidraça

a encosta do outro lado do vale

já não é um sítio

apenas um mapa

que sítio tem gente amando a terra.

 
Pode ir‑se por esses casais fora

sem encontrar vivalma a quem dizer bom-dia

o medo habita as sombras

e a coragem abandonou os braços

deixando a via livre aos vermes da solidão.

 
As folhas caídas apodrecem

em leitos de água e lama

e traem os animais nas tocas

ao abafarem os passos dos caçadores

que vagueiam por montes e vales

em dias inúteis com cães e armas

perseguindo a lembrança

de lãs e penas presas nos tojos

teimosos numa extinção

que concluíram já.

 
As aranhas lançaram fios

e teceram

finíssimas teias de seda

ligando os ramos das moitas

onde as gotas de orvalho preguiçam

como sinhás em rede colonial

de que muitos saudosos se lembram

e sonham utilizar ainda

em prejuízo de outrem.

 
As agulhas dos pinheiros parecem o cabelo

do Outono a sair do banho

escorrendo nevoeiro

na expectativa do vento suão

que lhes enxugue os fios

numa agitação Beethoveniana

de desgrenhado génio

produzindo em sofrimento

árias para violino

gemidas nos fios dos telefones

ao longo dos caminhos desertos.

 
Árias que num andante crescendo

alegro vivace com brio

presto prestíssimo

levam as telhas dos infelizes que já não vivem nas cabanas

de telha lusa vã

e chão de terra pisada

arrastados que foram pelos vendavais

para barracas de zinco de ao pé da foz do rio

que lhes sorriu na ilusão

duma praia litoral

com sol um mês por ano. 

 
O musgo cobre as pedras

adoçando‑lhe os gumes e arestas

numa capa de ternura

arrastada pelo tempo

com cicatrizes de experiência

enquanto os cogumelos perfuram

o manto de podridão e exibem

a monotonia dum branco doce

ou a garridice letal da sedução

na esperança justificada

de serem em breve os únicos seres à face da  terra,

além dos melros

– os tordos foram abatidos antes da azeitona tingir –

que vão viver muitos anos de fartura

por essas encostas além

onde as oliveiras eternas

magnânimas e generosas

maltratadas por entre as pedras

ainda oferecem o fruto atirado aos pássaros.

 
Atrás dos muros dos jardins

dos novos palácios

altos acima dos olhos

a perder de altura

vislumbram­‑se as árvores exóticas

sempre verdes

por sacrifício da sede de muitas fontes

que nem a chuva de Outono mitiga

impedida de entrar na terra

por decretos de alcatrão.

 
Um diospireiro solitário

despiu o agasalho das folhas

em favor dos frutos

talvez os frutos de oiro

do jardim das Hespéridas

roubados pelo gigante

há muitos séculos

e que parecem bolas

monotonamente coloridas

numa árvore de natal de quem não O tem

nem Árvore

 
Já nem o Natal transporta o algodão macio

das esperanças novas

que abria nas crianças rumos de mais além

sem fim à vista

por ter início decretado

no acender das lâmpadas municipais

quando o autarca com um discurso do ano passado

inaugura o interruptor da electricidade

e acaba quando as luzes se fundem antes das andorinhas

trazerem a Primavera,

 
que não vem por ela

com horário certo

como sempre veio ao longo da memória

tem se ser empurrada senão fica por lá

nas asas cansadas de aves perdidas sem norte

com frios de todo o lado a tolher‑lhes

a orientação congénita

e sem aves não há primavera

ainda que o sol seja por decreto

colocado no Zénite

acima das nossas cabeças

para fazer do arco-íris o ludíbrio

do nosso contentamento.

 
E além da vidraça,

na encosta do outro lado do vale

andam ventos a lavrar as ramas

das árvores silvestres

que recuperam o sítio em tempos expropriado

para pão e vinho

enquanto a enxurrada

leva para mais longe

a terra inválida de cereais e frutos

que lá longe na foz do rio

após trespasse a novo dono

valoriza ao ver‑se semeada

de candeeiros e raízes de cimento

com homens de chapéus de chuva

a buzinar impropérios.

 
E com a lama são arrastados

os olhos de quem fica atrás da vidraça

a fazer de conta

que tudo há‑de voltar

na boca do cachorro que foi atrás do pau

caído na corrente

onde os moinhos se cobrem

de musgo e heras

enquanto a farinha nasce espontânea

nos porões dos navios

ancorados nas docas

sem precisar espigas.

 
Pardais aflitos com os ninhos húmidos

encolhem‑se nas moitas enquanto espreitam

sementes por entre as pedras

onde caibam bicos

que nas eiras inúteis há muitos anos

já nem a grainha das uvas vai a secar

e subsídios não alimentam pássaros

enquanto os cães sem temer a chuva

vão de cerca em cerca

ociosos

procurando ossos

farejando cios. 

 
Na base da encosta do outro lado do vale

viceja no lameiro que margina a água

um campo verde

a morrer de ciúmes

por não ser estádio de cidade de foz de rio

assim mais útil no jogar da bola

pastos não são precisos já

que para Bruxelas se roga

e de Bruxelas vem

o gado da nossa indigência.

 
O lume na lareira aquece só o frio exterior

que na alma lavra um gelo sem lenitivo

eivado do desgosto de já não ser

de origem própria mas importado

além das linhas que nunca houve

mas existiram e fizeram mortes

quando havia pão de um lado e do outro fome

linhas que apenas os audazes passavam

para regressar contando as maravilhas

descobertas na outra banda.

 
Esconder a linha misturou pão e fome,

desta mais e daquele menos

os braços ficaram vazios que nem trabalho rende

calor para enfrentar a neve

que se prevê nos boletins da meteorologia

deste inverno que se avizinha longo

com muitos nevoeiros à janela

e lareiras de cinza no coração

enquanto os subsídios se escoam

nas mãos dos outros.

 
Já não é a chuva que parece choro

nas vidraças da janela

mas os olhos detrás dela

que fazem uma chuva de lágrimas

nas vidraças da janela.

 
Abadia, 3/12/2000



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